Gênero: Queer

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Dos perigos da “essência homossexual”

Há, em toda essencialização, um perigo. Esse perigo está em olhar semelhanças e excluir diferenças. No âmbito da sexualidade, o que se faz é, a grosso modo, a apropriação deliberada, por parte de pessoas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo, de uma categoria forjada no seio da medicina – que tinha como fim patologizar as sexualidades estéreis: a homossexualidade.

O que eu quero dizer é: não há uma essência “homossexual”, ou uma essência “lésbica”, ou “gay”. Ao afirmar isto, estamos reforçando um estigma que serviu para nos oprimir e nos excluir de uma outra categoria: a heterossexual, forjada no seio da ascenção capitalista.

O que há são homossexualidades. Há sim, a coincidência de pessoas que sentem desejo por pessoas do mesmo sexo. Porém, é fajuta a busca, por quem diz se “descobrir gay”, por uma origem da sua própria homossexualidade, como se quisesse provar, através de suas experiências na infância ou na adolescência, a legitimidade de sua “homossexualidade” essencial.

Ora bolas, o desejo está aí. Porque há esta vontade incessante de se provar que de fato se é homossexual? De que, naquele dia, naquele ano, se olhou com um certo interesse para o coleguinha do mesmo sexo na escola? E as experiências com o sexo oposto que, eventualmente, podem ter ocorrido? São um mero acidente, um “acontece”?

Não quero negar a existência de pessoas (ditas homossexuais) que realmente não têm atração pelo sexo oposto, ou que nunca se relacionaram com e não têm curiosidade alguma. Quero afirmar que, uma parcela significativa dos que se afirmam “gays”, já sentiram uma atração legítima por pessoas do sexo oposto e “apagam” isso da sua história ou des-legitimam esta experiência, em favor da defesa da homossexualidade essencial. Alguns chegam a afirmar e defender que há um gene homossexual.

Também não quero dizer que somos todos bissexuais, seres “em cima do muro”. Quero borrar este muro, torná-lo menos firme, resistente.

Se for para ir até a infância ou até as experiências sexuais da adolescência, que seja para descobrir que não temos essência, que não somos seres coerentes, que somos seres temporalizáveis, que possuimos muitos presentes, e que cada presente é único e obedece ao seu interesse neste presente. Se for para ir ao início de tudo, como diz Foucault, que seja para constatar que “o que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada da origem – é a discórdia, entre as coisas, é o disparate”.

Há sim, o fato de se oprimir, culturalmente, as experiências homoafetivas – e de se excluir dos direitos civis os casais homoafetivos. A identidade homoafetiva deve ser utilizada, sendo assim, politicamente, como uma mera estratégia – e não para distinguirmos o verdadeiro do falso homossexual. Dessa forma voltaríamos à velha e opressora metafísica platônica da cópia e do simulacro, onde o simulacro seria o “falso pretendente”, a “falsa cópia”; fadada ao limbo das exceções, onde não se representa nada, onde não se faz parte de nada, e transformaríamos a “homossexualidade” em algo tão opressor quanto a heteronormatividade. Queremos criar uma homonormatividade?

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Por que Maria Clara Spinelli é uma atriz diferente das outras?

reportagem originalmente publicada em 24/03/2010 no site http://virgula.uol.com.br . Todos os direitos reservados.

Por que Maria Clara Spinelli é uma atriz diferente das outras?

24/03/2010 14h30 Paloma Guedes
Maria Clara Spinelli (Reprodução)

Maria Clara Spinelli

Maria Clara Spinelli é doce, delicada, charmosa e extremamente feminina, do tipo que pode ensinar a qualquer uma como ser uma mulher de classe. Maria Clara é transexual. Ela nasceu do sexo masculino, mas sempre se sentiu mulher. Até que se tornou uma.

A atriz, que estudou e participou de grupos de teatro e dança, estreou no cinema em 2009 no longa metragem Quanto Dura o Amor? dirigido por Roberto Moreira (de Contra Todos), onde interpretou Suzana, uma advogada contida e misteriosa que busca a felicidade mas guarda um grande segredo.

Longe de ser clichê, a interpretação de Maria Clara já lhe rendeu no início de 2010 prêmios de melhor atriz no II Festival de Cinema de Paulínia e no Hollywood Brazilian Film, realizado em Los Angeles (EUA), assim como a indicação no VI Prêmio Fiesp/Sesi-SP do Cinema Paulista, que acontecerá no dia 31 de março.

O Virgula a entrevistou para saber mais detalhes sobre sua vida, carreira, dificuldades, preconceitos, aceitação e novos projetos. Confira:

VIRGULA: Quanto dura o Amor é seu primeiro trabalho no cinema. Como você soube da produção do filme? Como foi o processo de seleção até saber que o papel era seu?

MARIA CLARA: Uma amiga me falou sobre o teste. Fiquei desconfiada, sempre sou muito desconfiada. Depois descobri que a produtora era a Coração da Selva (de Contra Todos e Antônia), e me interessei muito.

Enviei meu material para a produtora de elenco; ela gostou e marcou uma entrevista com Roberto Moreira. Depois fui chamada para um teste com o ator Gustavo Machado (de O Amor Segundo B. Schianberg, Nome Próprio). Fiquei com “borboletas no estômago” (risos), porque eu já era fã do trabalho do Gustavo há muito tempo e foi uma emoção muito grande conhecê-lo ali. Fizemos as cenas e posso dizer que graças a ele eu passei. Sempre falo que se Gustavo Machado não fosse o “Gil”, eu provavelmente não seria a “Suzana”. Um mês descobri que o papel era meu.

VIRGULA:  É inevitável perguntar: sei que assim como Suzana você é transexual, e esse é o papel que está “mostrando sua cara” no cinema nacional. Existe uma preocupação da sua parte de não ficar rotulada para papéis desse tipo? O que você acha possível fazer para que isso não aconteça?

MARIA CLARA: Sim, essa é uma preocupação muito grande minha: não me deixar estigmatizar (como atriz) por um rótulo, um pré-conceito. Antes de aceitar esse papel eu pensei muito. Já havia recebido um convite anterior para outro filme e recusei. Eu não estava preparada na época.

Mas quando passei no teste para Quanto Dura o Amor? pensei seriamente no que é fundamental para mim, prioridade. A exposição pública da minha intimidade não me agrada, mas esse é o preço que qualquer artista tem que pagar. E eu percebi que SER ATRIZ para mim é algo muito importante, que faz parte de mim, que eu preciso realizar. Então, decidi pagar o preço disso.

O que acho mais importante e tento fazer nesse sentido (não só para mim, mas para qualquer pessoa pública), é tentar não me expor de uma maneira negativa, com sensacionalismo e preservar o que eu achar que não é necessário ser público sobre a minha vida.

VIRGULA: Você já atuava antes da sua “transição”? Pergunto para saber como funcionava a relação com a interpretação – já ouvi relatos de transexuais que afirmam que se sentiam presos no corpo de outra pessoa, assim como a interpretação é uma profissão onde as pessoas vivem outras vidas. Você acredita que existe alguma relação disso com a sua escolha profissional?

MARIA CLARA: Boa pergunta! Sabe que eu nunca havia pensado sobre isso?! Talvez faça algum sentido…

Sei que sou mulher, desde sempre. Nunca houve um período de “descoberta”. Eu simplesmente nasci, e era mulher. Não tenho culpa, não tive escolha. Mas, conforme fui crescendo, claro que fui percebendo que “tudo” estava errado, e eu não sabia como seria meu futuro, minha vida.

Desde então (não sei se é uma característica de todas as crianças, ou era minha) eu me imaginava, “projetava”, vivendo uma vida plena como “Maria Clara”. Eu nem sei se isso era consciente ou não, mas sempre existiu. E em todas as histórias que eu ouvia, nos filmes que assistia, desde pequena, eu me sentia muito atraída pelas personagens femininas, sempre mulheres fortes, à frente de seu tempo. E sempre me via sendo uma delas. Talvez isso tenha alguma relação com minha necessidade de me expressar representando vidas que nunca tive. Ou não. Não sei. (risos)

Sim, eu já atuava antes da minha “transição”. E já interpretei personagens masculinos. E era muito difícil pra mim, assim como todos os personagens. E eu pensava: “sou uma atriz, eu posso fazer isso!”.

VIRGULA: Você lembra o que passou na sua cabeça quando soube que ganhou o prêmio de melhor atriz em Paulínia, seu primeiro grande prêmio?

MARIA CLARA: Me lembro sim. Foi um espasmo, uma surpresa, carregada de muita emoção! Passou pela minha cabeça que “eu não estava errada”! Não era impossível viver o sonho de ser atriz. Ali, naquele momento, eu estava recebendo o prêmio de melhor atriz pelo meu trabalho no meu primeiro filme! Eu não estava recebendo o “prêmio de melhor transexual”. E isso muda tudo.

VIRGULA: Você é funcionária pública em Assis, cidade onde você nasceu e mora até hoje, certo? Você pretende largar essa profissão para atuar? O que falta para que isso aconteça?

MARIA CLARA: Sim, sou. Assim como toda atriz, sonho em exercer somente o meu ofício como profissão. Mas isso ainda não foi possível.

O que falta para isso acontecer? Maior estabilidade na minha carreira de atriz, eu acho. O que, no Brasil, infelizmente é muito difícil para todo mundo…

VIRGULA: Quais são os seus próximos planos profissionais?

MARIA CLARA: Fui convidada para fazer dublagem em um longa metragem de animação, o que me deixou muito feliz. Pela qualidade e originalidade do projeto (o que infelizmente ainda não é comum no Brasil). E pela personagem, que eu adorei!

Paralelo à isso, por incrível que pareça, tenho mais contatos de pessoas interessadas no meu trabalho nos EUA, do que no Brasil. Fico feliz e triste por isso. Porque também quero trabalhar mais no meu país.


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