Gênero: Queer

Ícone

Teoria Queer não é “gay and lesbian studies”

A grande frustração da minha carreira acadêmica, é que, por ela ser uma extensão do meu posicionamento político – e vice-versa -, eu sinto a necessidade de explicar de forma clara pra quem pergunta com o que eu trabalho, o que é a “Teoria Queer”, ou o que é “Queer”. E nem sempre essa pessoa está disposta a uma longa exposição.

O maior problema dessa história é o fato de que, infelizmente, somos muito dependentes culturalmente dos nossos vizinhos do norte, os americanos. Queer é uma palavra ótima, mas que ainda não conseguimos traduzir para a realidade cultural e política latino-americana. Ela acaba sendo alvo de confusões e de dificuldades na comunicação entre academia e sociedade.

É um fato também que, para as pessoas que dominam e que conhecem o inglês, a palavra Queer signifique “gay”, “lésbica”, “homossexual”.  Sim, é verdade que ela é largamente usada pelos americanos nesse sentido. Os programas “Queer Eye for the Straight Guy” ou “Queer as Folk”, são um exemplo.

Lendo ontem um texto chamado “Como se piensa lo “queer” en América Latina?”, publicado na revista Iconos, da Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales-Sede Acadêmica de Ecuador, encontrei algumas boas definições do termo,e  de seus atuais usos políticos e acadêmicos:

O queer funciona como práticas transgressivas ou liminares que redefinem a relação estabelecida com a família, a nação ou a cidadania. As discussões sobre o queer se distanciam de estudos previos relativos à sexualidade como os gays and lesbians studies (estudos gays e lésbicos), ou outros estudos sobre o tema. Tendo em conta esta diferença, as leituras queer não excluem temáticas de gênero e sexualidade mas dependem delas para formular críticas a sistemas heteronormativos.

(…)

Um dos princípios da teoria queer é a temporalidade dos sujeitos e os significados em constante reformulação. (…) De modo que o termo queer não é um sinônimo de gay ou de homossexual, pois cada um tem diferentes trajetórias teleológicas, ontológicas e epistemológicas.

Pluralidade na diferença.

Queer, é, portanto, sinônimo de constante mutação. É sinônimo de que a identidade nunca é unificada, ninguém possui uma identidade única, una, essencial. De que eu não sou só uma pessoa feminina ou masculina, mas que eu transito por um espectro de identidades que existem entre a feminilidade e a masculinidade (e também nesses próprios extremos). Que, exemplificando de maneira bem grosseira, eu posso sair de vestido de manhã e de gravata à noite. Que fulano pode vestir gravata com saia o dia inteiro, ou vestido e bigode. Ou ter trejeitos femininos e depois masculinos, ou masculinos e femininos ao mesmo tempo. É o questionamento das oposições masculino / feminino.

David Bowie é um ótimo exemplo da temporalidade do sujeito, com seus múltiplos gêneros e faces no decorrer da carreira.

É o questionamento de que o  mundo deve ser regido por uma regra de que algumas pessoas devem obedecer regras de quem está desse lado da linha (masculino) ou daquele (feminino). É um questionamento de que o desejo sexual deva ser compatível com essa identidade. De que o desejo sexual deva ser coerente (decidir, sair do muro, publicar e gritar se você é homo ou hétero). O queer é o contrário de toda a coerência. O queer é a defesa da “différance”, outra palavra de difícil tradução, a pluralidade da diferença, metamorfose.

Filed under: Uncategorized

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s